Paris

 

Na última reação dele despertou em mim uma raiva, mas ao mesmo tempo, fingi que estava tudo bem, tinha um sorriso que provocava uma irá estratégica nas pessoas de boa paciência, neste caso, a boa paciência significava ignorar tudo. A frieza também se aprende com a frieza, era a única forma de compreender o sorriso dele, ele sabia irritar as pessoas.

-Então, não vamos continuar a caminhada para encantar as crianças? A vontade era de manda-lo para aquela palavra feia, mas gostava dele, muito mesmo, pelo simples facto dele nunca desistir de coisas que acredita e confia, mas, pus me a pensar: ele, um jovem com o mundo a frente fica andando por tudo quanto é lado com um “chato” como eu, sim um chato que acha-se salvador disto tudo, realmente o gajo era de uma outra água.

Gostava das discotecas mas nunca dançava fora do grupo que ele tinha pertencido a mais de cinco anos, gostava de falar com os outros, mas raras vezes abria a boca, gosta de comida, mas nunca passou de uma magreza insistente, o assunto dele mesmo, era a poesia e o hip hop, mais por ter um irmão que insiste muito nesta arte ingrata e duvidosa.

– Loff, vamos ou não, as crianças estão esperando, disse ele, e eu aproveitei mais uma vez provocar.

-Deixe que esperem, que de certeza não vão encontrar o emprego tão facilmente quando crescerem, têm de se instruir esperando desde agora, que no mundo, tudo para ser conquistado necessitarão de altura estribado na cunha, têm de crescer nos dois sentidos.

-Terão de ter paciência. Mais uma vez ele queria trazer aquele insuportável sorriso, troquei a cara como se fosse uma camisa de força trocado no hospício, em vez de rir ele calou. Apanhei minha mala, ele, o saco, e na outra mão levávamos um conjunto de livros infantil, mas tinha a certeza que ele ia perguntar alguma outra coisa.

-Mas Loff, tu achas, que eles vão adquirir o hábito de lerem os livros? O que é que eles vão ler?

Andamos alguns metros, eu em silêncio, pensando no que poderia dizer ao Intentado, porque a pergunta parecia inocente, mas precisava de uma resposta à altura daquele gigantinho. Ele também entrou naquele silêncio, brincava com um amuleto na mão que nunca soltava, as vezes passava pessoas chamando ele de rapacinhu Intentado. Mas o que mais gostei foi de uma criança o ter chamado de Pindoco, pindoquinhu, coisa que não gostava, desatei a rir enquanto ele estava parado a esfregar os pés na terra, pisou a bosta. Eu, Olhando ele. Levantou os pés me mostrando a sola de sapato emborrado de coprólitos da vaca. Faltava menos de trinta metros em direção ao jardim infantil de Covão Sanches as duas professoras estavam na porta nos esperando, havia alguma ansiedade de estar com as crianças, mas a vontade do intentado era maior, não por ser naquela altura a maior figura publica de Tarrafal, mas por ter de usar da mesma fama para fazer pessoas sentirem-se felizes, só por isso ele é o meu Cabral Intentado. A alegria dele aumentou ainda mais quando soube que era o Jardim Girassol.

-mas porquê está alegria tosca rapaz? Disse de forma calma e com algum cinismo consentido.

Só sorria, pelo olhar notava-se que ele não queria dar aquele sorriso que me irritava, aprendeu rapidamente a ser cuidadoso com as minhas ameaças sem sentido. O sorriso é de agradecimento. Ele iria fazer as crianças do seu bairro serem felizes com a arte teatral, poesia e a leitura.

-Já agora só para lhe dizer sobre a tua pergunta.

-Esquece. Disse o intentado.

-vão ler palavras- retorqui insistindo.

Ele sentiu-se meio ofendido pela resposta, mas são as palavras que eles vão ler no livro e na vida a fora. Naquele momento lembrei de que o Estoicismo de Hamlet é o mesmo de quem se conhece perfeitamente a si mesmo, citando o Leandro Karnal, nisso hoje entendo a confiança que ele trazia nele mesmo quando abandonou a universidade deixando recordes por bater, amores por atender, meninas por namorar e professores dececionados por terem perdido um bom ator.

Chegando ao jardim ouvimos sururu das crianças chamando Rapacinhu Intentado repetidamente, subimos a escada - pronto, já estamos dentro de jardim. Abriram a porta, a professora visivelmente emocionada com a presença do magrão e a sua cabeça com uma cabeleira que quase lhe cobria a cara. Começou uma barrulheira que a professora teve de atuar para que possamos começar a venda das nossas ladainhas infantis.

A primeira pergunta se não me engano teria feito a professora.

-sabem quem são estas pessoas?

Voltaram a fazer uma barrulhada para responderam, uma ou duas palavras.

- É o rapazinho intentado professora, responderam as crianças com muita alegria que paria pelos olhos. Mas esqueceram-se de mim.

Fiquei no canto da sala assistindo o talento do rapaz em tratar as crianças, usei toda a minha afouteza e disse - Ninguém aqui sabe quem sou eu? São mesmo umas bestinhas essas crianças, tratei logo de me apresentar.

-Eu sou Mário, se este gajo esta aqui hoje, foi graças ao criador deste projeto, claro eu, nê. Desisti logo porque ninguém ligava para a minha ladainha, mas disse ao famoso no ouvido, -aproveita seu momento de fama porque essas crianças vão esquecer tudo isso quando os seus pais os deixarem assistir o hospício cultural, as telenovelas.

Até o final das atividades já não restava livros para oferecer tanta procura, ficou a promessa de voltarmos numa outra oportunidade, mas ficou um último livro que obrigava alguém a fazer uma derradeira pergunta, passaram me o comprometimento. Fiz uma pergunta simples.

-Qual é a cidade da França?

-Paris, desse de forma carregada a menina.

Ganhou o livro e uma caneta que tinha no bolso da calça.

-obrigada, disse a menina.

Despedimos da professora e dos alunos, desde aquela data até hoje passou quatro anos e nunca mais fui perguntar como esta aquelas crianças, como é que os livros afetaram as suas vidas, se continuaram a ler, se na escola são bons alunos, ou se estão usando a maconha desde tenra idade, já que esta na moda, se isso acontecer é porque falhamos, mas, não tanto, já que o projeto se chamava “Despertar”.

Ouvi uma voz miudinha me chamando no meio das plantas, era sábado, na praça da vila.

-não lembra daquela pergunta que me tinhas feito no jardim? Logo apercebe-me de que era aquela menininha.

-não, não me lembro, fingi sorrindo. Mas a vontade era perguntar se não estava fumando a maconha, mas deixei de lado a minha maldade. E disse para ela sair do meio das flores.

Ela ficou atonita com as mãos no ar como se fosse perguntar porquê.

Logo aproveitei a inspiração e disse – não sabias que as flores guardam os seus sonhos para os casais apaixonados, e quem entra no meio delas consomem os seus sonhos e sonhos dos românticos.

A menina me fitou mais uma vez nos olhos.

-não me diga que são as flores que provocam as separações e brigas de casais.

Logo inventei mais uma desculpa esfarrapada tentando acalmar a confusão, com aquela tentativa frustrada de fazer poesia instantânea para criança.

- Não são culpadas, os culpados somos nós que as roubam os sonhos antes de estarem preparadas para servirem os amorudos, já agora quem são os teus pais. Pela cara que se entristeceu rapidamente pude perceber que havia algo ali escondido no seu coraçãozinho.

-meu pai é padeiro e a minha mãe é emigrante. Disse ela.

Mas porquê que ela vos abandonou?

Ele levantou a cara, agora um pouco mais alegre e voltou a me responder como se as frases tinham reencarnado nela.

-Olha, agora entendi o porquê que a minha mãe viajou, é que ela ia todas as manhas a nossa padaria e depois de estar prontos os pães, e ela nunca consumia os pães, de certeza por não ter consumido, acabou por absorver o sonho da padaria e dos pães.

Vamos mudar de assunto, disse para ela lembrando o tema da primeira abordagem. Ela me levou a pensar, no porquê de o mundo inteiro ainda ter milhões de crianças estarem a passar fome, talvez seja pela razão de grandes quantidades de pães terem sido roubados a sua ansia e sonho de saciar e acabar com a fome destas crianças famintas.

-qual é a cidade de França? Perguntei.

-É Paris, disse a menina.

Aproveitei para faze-la uma nova pergunta sobre a pessoa que me tinha acompanhado naquela aventura, coisa que quase ela já esquecia, dizendo ela.

- ahn, o intentado, não o Pindoco, ahn já sei o pindoquinho, parecia brincadeira mas ela estava procurando a certeza. Grunhi a cara e Perguntei.

-Onde ele esta neste momento?

-Paris

Despedi da menina e ela voltou a brincar, e pôs-me a pensar nos sonhos realizados e não realizados e uma delas que precisava de ser sempre realizado era precisamente o despertar, mas terei de estar esperto para não sugarem os sonhos do projeto. Mas qual sonhos? Se ainda não colocámos as mãos a obra, porque um dos mentores esta morando na cidade dos sonhos.

 

A gata borralheira

 

 

Terminou os desenhos animados, letras subiam devagarinho e desaparecia na parte superior do monitor do computador, a luz do ambiente de trabalho batia na parede fazendo um clarão contrariando o escuro provocado pelo interruptor que desparrou pela mão de alguma pessoa.

Era a animação de Ruca, o menino estranho e criança, realmente é a mensagem para o universo infantil, é educativo consegue prender crianças a partir de dois anos a frente da TV ou de um computador, mas antes do Ruca estávamos a ver a animação da Cinderela “a gata borralheira” um grande conto italiano recriado pelo francês Charles Perrault.

Sentado com a Núbia assistindo, esperando aquela parte que a Cinderela é transformada pela fada-madrinha numa Dama de baille, eu estava mais ansioso em ver a Cinderela do que a criança que estava comigo. Núbia assistia o desenho mas também estava brincando com a caneta, e eu ali completamente doente no desenho animados. Estiquei as mãos para cima e um estalar de descanso nas costas e costelas.

-ohm, cheeeii. Núbia gostou deste desenho? Já terminou.

-não apreciei pai, disse a núbia sem dar o mínimo de importância para a minha grande admiração pelo desenho que acabara de terminar. É realmente estranho, uma criança não gostar de um desenho animado mais visto pela humanidade, e é um conto clássico, transmiti exatamente isso na cara dela, mas sem falar nada, só observei os olhos dela repleta de confiança.

-pai, tudo bem, mas diga me, porquê que a Cinderela quando abandona o baile, todos os feitiços desaparecem, e os sapatos de cristais não?

Queria esforçar o diálogo para justificar por A mas B o porquê de os sapatos brilhantes não ter desfigurado, mas calei-me entregando a razão a criança de dois anos, realmente, depois de ver este desenho mais de vinte vezes, desde os meus oito anos, nunca tinha reparado neste pormenor que passa despercebido aos olhos de muita gente. Interessante a observação da Núbia.

-bem já é hora de deitar, minha baixinha, disse eu, ela me olhou surpresa e apontou um dedo para a porta, virei a cabeça e não vi nada na porta. Somente os passos de pessoas que deambulavam na calada da noite e choro de um cão.

-papa, não ouves.

-mas, ouvir o quê? Começava a ficar estressado e com sono a frente de uma menininha atrevida, pensei eu.

-o cão que esta a chorar. Fiquei ainda mais estressado com a preocupação dela.

-deixa o cão dormir em paz, de certeza estão a namorar, e eles tem direito, assim como os adultos na calada da noite quando as pessoas como você já deveria estar a dormir. Botei um humor, mas ela ficou com a cara fechada e seria, entendi e vi a minha própria cara na face dela.

Desatou a choramingar fazendo de defensora dos gritos cada vez mais alto do cão, ela queria que eu fosse para rua naquela hora, a fim de, ver o que se passava com o cão. Olhei com desgosto miudinho e malandro de quem não quer ir, mas tem que fazer a vontade de uma criança.

Aproximei da porta, o grito aumentava cada vez mais, cada passo que tirava do chão mais grito me entrava pela cabeça a dentro, com um pé na rua olhei para direita e para a esquerda, só um escuro me vinha aos olhos, dei os primeiros passos em direção ao som que vinha da boca do cão, cada vez que aproximava mais longe ficava a voz do cão, de repente cai num buraco, desatei a gritar desesperadamente pedindo socorro e ao mesmo tempo pensando quem vai tomar conta da minha família e da Núbia. Desde que cai naquele buraco passou muitos anos no tempo viajando com a esperança de atingir uma rocha, chão ou mar, mas não, morri em pleno ar por falta de uma fada madrinha para me salvar. Tudo ficou calmo e ai quando acordei e encontrei a Núbia deitada com a mão em cima do meu peito, conclui que tudo aquilo era um sonho. Mas os sapatos da Cinderela continua sendo um erro que passa de geração em geração. 

Numa biblioteca de Alexandria



A rapariga chamava Chalandreea, frequentava todos os dias aquele espaço, lia num ritmo frenético. Naquela tarde que o cheiro de incenso e cacau estavam espalhados pela cidade, ela estava setada com toda a sua atenção que a tornava cada vez mais atraente e ciente, quando estava lendo. Levantou-se, de repente correu para a casa de banho, coisa que nunca tinha feito na Biblioteca. O bibliotecário Nanpur a seguiu, para averiguar se passava alguma coisa.
Ao ter acesso a casa de banho que tinha duas divisões, sendo a direita das mulheres e a esquerda dos homens, ele foi diretamente ao do homens, ai, deu de caras com toda e esplendorosa mulher, de pele espantosamente fina e clara feito descendente de Nefertite, os olhos morriam de desejos. Caiu as vestes da menina, completamente para o chão, o bibliotecário ficou estupidamente mal educado feito um muçulmano radical dizendo incha-la. Resmungou mais pela beleza da mulher do que pelos rígidos códigos do Alà. A menina viu claramente nos olhos dele que alguma coisa iria acontecer. Ela disse ao bibliotecário.
-Veja bem para o meu corpo nu, e me leia todinha.

 

Ao decidir cortar o cabelo. Corta também aqueles pensamentos mesquinhos, aquele mais medíocre possível. Ao rapar a cabeça fica ciente de que eles nunca acabam. Por vezes eles voltam tão rápido ultrapassando a velocidade do crescimento dos cabelos e até da própria velocidade da luz. Pelo menos voluntária ou involuntariamente cortamos e rapamos os males da alma, pela cabeça.

 

Mario Loff

No quadrado a verdadeira razão era o meu combate ao desespero 
Do emprego que era em excesso do desemprego
Só era emprego se o próprio emprego fosse o próprio desemprego
Se não fosse emprego ficava mesmo assim no desemprego
E eu no quadrado esperando no desespero
Conclui, eu, Satyapremia e os meus colegas (des)empregados 
Somos uns “ku da sociedadi”.

 

 

Mario Loff